Cartaz aberto. E coração também

Conheci o trabalho do Gabriel Manussakis quando essa imagem apareceu na minha timeline e eu compartilhei:

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E, claro, fui lá fuxicar e descobrir de quem era, se de onde veio essa tinha mais e coisa e tal. E tinha. Além de tocar o Contogota, o Gabriel, que é um talentoso designer, tem um projeto bem lindo chamado Cartaz Aberto.

Conversei com o moço e olha quanta coisa legal ele me contou:

1.Quando te deu o estalo para largar o escritório e seguir teus projetos?

Acredito que toda mudança é resultado de um processo que começa muito antes do estalo da decisão de mudar. Ainda no tempo da faculdade, entrei para um escritório e lá fui muito feliz como designer gráfico. Tinha liberdade de trabalho, perspectiva de crescimento, companheiros interessantes, e cheguei ao ponto de trabalhar diariamente em casa. Mas é engraçado que, após 4 anos trabalhando em condições tão favoráveis, comecei a me sentir vazio aos poucos. Sentia que precisava mudar, atender aos meus próprios briefings, mas não sabia por onde começar. Candidatei-me para um mestrado fora do país e, antes de receber a resposta, pedi demissão; assim, de um jeito ou de outro, alguma coisa teria que mudar. Não fui aceito no mestrado.

2.O que te inspira? Quem te inspira? Na vida e nos projetos.

Tanta coisa, meus projetos ocupam tanto tempo em minha vida que não consigo separar as duas coisas. Penso que as inspirações nos atingem por todos os lados, e isso acontece desde que começamos a reter as coisas do mundo em nossa volta. Algumas dessas inspirações são mais fáceis de serem identificadas em nosso trabalho e comportamento, outras se escondem. Cito aqui algumas pessoas cuja a obra me atinge profundamente: Srila Prabhupada, Laerte Coutinho, Doris Dörie, Shigeo Fukuda, Luba Lukova, Patrick Süskind e muitos outros.

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3.Os contogotas são muito certeiros e poéticos. O quanto tem da sua vida- e do mundo ao redor- em cada um deles?

Tudo. Encontrei nos Contogotas uma maneira que me atende de me expressar nesse momento que estou atravessando. Expresso-me sobre as percepções que me ocorrem no viver, e elas surgem em qualquer situação: conversando com amigos, numa briga conjugal, pagando uma comanda no restaurante, passeando com minha cachorra, enfim, vivendo. É essa carga de humanidade que nos envolve no cotidiano, em todas as fases da vida, que tento extrair e levar para o papel com os Contogotas.

4.Você pretende publicar os contos?

Certamente. Mas não vejo isso se concretizando num horizonte próximo, eu produzo meus desenhos há muito tempo, e há pelo menos uns 7 anos que busco desenvolver um trabalho autoral. Mas só agora, com os Contogotas, sinto que consegui manter uma linha própria de trabalho, então isso é uma novidade para mim. Por isso, acho ainda cedo pensar em uma publicação impressa, mas confesso que essa ideia me anima.

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5.Qual o principal objetivo do Cartaz Aberto?

O Cartaz Aberto é um projeto que nasceu como meu trabalho de conclusão de curso em 2011. Começou com um concurso aberto de cartazes sobre a corrupção e, ao longo dos anos, outros tema já foram abordados. Em 2014, entraremos na quarta edição do concurso. O objetivo é explorar o potencial do cartaz como um meio de
manifestação social, e, assim, estimular a sua produção principalmente com esse fim. Em 2013, iniciamos um novo braço de atuação, foram oficinas de reflexão e produção de cartazes com alunos do ensino básico em uma escola pública em São Leopoldo, RS.

6.Me conta um pouco do porque de escolher trabalhar com cartazes?

O cartaz é uma peça gráfica que, por meio da síntese, possui um potencial imenso de transmissão de mensagem para um grande número de pessoas. A sua aparente simplicidade e limitações, quando consideramos que ele se acomoda em geral em um suporte de papel, retangular e vertical, esconde uma incrível complexidade de execução que envolve a escolha de elementos gráfico certeiros, que devem funcionar como bons condutores da mensagem. Todo esse potencial faz dele uma ferramenta importante para a manifestação de uma sociedade como a nossa, que aguarda o atendimento de demandas sociais há tanto tempo. Um bom cartaz, fixado no ambiente urbano, atrai de surpresa os olhares dos transeuntes, estes, ao receberem a mensagem,
podem ser novos disseminadores. Nada garante que todos serão transformados, mas, se uma pessoa for, então, o esforço em manter o projeto já terá valido a pena.

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7.Como surgem os temas dos concursos?

Cada edição teve um processo de escolha diferente. No primeiro ano, com o tema corrupção, a escolha veio através dos atendimentos com minha orientadora do TCC, Andréa Almeida. Ela foi fundamental para a realização do projeto. Na segunda edição, buscava um tema menos abrangente que o concurso anterior e, discutindo com outros parceiros, chegamos no tema “Belo Monte para quem?”. Em 2013, contei com a ajuda do Danilo Molina, uma amigo que fiz no antigo trabalho e que participou da organização. Numa conversa, voltando para casa, tivemos essa ideia de abordar as diferentes formas de escravidão, o que gerou o termo ”Cárcere Cotidiano”. Não há muita regra para essa escolha, mas o tema deve estar relacionado a uma questão social que mereça ser levantada e difundida.

8.Juntando o Contogota e o Cartaz Aberto, você consegue lidar com a dupla design + palavra de uma maneira muito interessante, mesmo com meios diferentes, internet e papel. Você acha que as duas iniciativas se encontram em algum ponto?

Acredito que tudo o que fazemos está conectado. Considerando que os dois projetos foram criados pela mesma pessoa, é natural imaginar que ambos estão de alguma forma em contato. O Cartaz Aberto veio primeiro, mas não diria que sua plataforma seja somente a internet, embora seja ela o principal meio de contato com os interessados. O ponto mais importante no Cartaz Aberto é o fato de os cartazes não serem feitos para uma exposição, ou para apenas existir no meio digital. Os cartazes vencedores dos concursos são impressos em serigrafia e já foram distribuídos e fixados em diversas cidades brasileiras, só assim se pode dizer que ele é feito para a sociedade, pois não são todos que frequentam exposições ou possuem acesso à internet.

Vejo que há algo de cartaz nos Contogotas, no processo de criação, me esforço na busca da síntese e complemento entre imagem e texto e, de certa forma, essa é a ideia empregada na criação de um cartaz. O Contogota é o espaço onde mantenho minha produção autoral, já o Cartaz Aberto exige um trabalho de planejamento e organização para manter o concurso e tudo o que a isso está envolvido: escolha de
tema, divulgação, convidar o júri, procurar estrutura para o encontro, e a lista segue.

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Essa coisa de processo criativo é mesmo muito incrível, né?Ó, os resultados dos concursos estão aqui, aqui e aqui.

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