Ei, me dá um pitaco aí?

Tulio é um moço muito gente fina que sabe das coisas do mundo acadêmico, da tecnologia, da curadoria, do conhecimento, da black music e muito mais. Dia desses ele surgiu com uma ideia lá no face que, de cara, já parecia bem boa.

Ficou curioso? Então vem saber mais do Pitacodemia.

1- Como surgiu a ideia do Pitacodemia?

O Pitacodemia veio como uma “ideia-insight” há cerca de um mês. Mas na verdade, só aconteceu porque estou com alguns projetos de compartilhamento de conhecimento há mais de um ano. A diferença é que nunca tirei as outras ideias do papel, e o Pitacodemia está sendo pura execução. Acho que o fato de transitar entre mundos diferentes, como a academia e o mercado, e ter contato com uma série de pessoas ajudou a pensar nesse formato para o blog, que, a meu ver, é um modo simples, prático e também útil – se pensarmos, as listas não são dependentes de “data de expiração” – de trocar referências entre pessoas.

2- Qual a importância de compartilhar bibliografia?

Bom, para mim, compartilhar bibliografia é a ponta de algo mais importante: compartilhamento de conhecimento. Há vários aspectos nisso que me preocupam, mas no sentido bom da coisa, ou seja, do “como posso talvez propor algo sobre”. Primeiro: a produção e acesso ao conhecimento. Muitas ideias e contribuições relevantes são produzidas na academia hoje, em diversas disciplinas. No entanto, em grande parte pelo modo como se está institucionalizada a maneira de “produzir ciência”, a maior parte dessa produção não é espalhada da forma mais ampla possível. Sem dúvida, não nego que exista certas expectativas contemporâneas trazidas pelo modo como nos relacionamos com tecnologias, por exemplo, mas a necessidade de acesso e compartilhamento me parecem cada vez mais aguçada entre as pessoas. E mais: com as possibilidades que as tecnologias trouxeram, há pessoas buscando conhecimento “por fora”, de modo independente das instituições. Acho que compartilhar bibliografia também colabora para colocar mais pessoas em evidência nos debates e discussões. Claro que o projeto Pitacodemia é muito pequeno diante das questões sobre acesso e tudo mais (um exemplo: dificuldade que muitos pesquisadores têm de acessar às obras… isso era algo que brilharia meus olhos, mas ainda há muita pressão por conta de formatos e jurisdição em torno de propriedade intelectual, enfim…), mas talvez as listas, assim como um “pitaco”, podem estimular a troca, a busca por referências. Bom, eu sou daqueles românticos.

3- Na sua opinião, o que o “mundo acadêmico strictu senso” poderia fazer já, pra tornar os debates e as trocas mais interessantes entre os jovens formandos de graduação e pós?

Pergunta difícil essa. Bom, eu acho que a academia, em muitos aspectos, já vem mudando. Entre o que foi minha graduação, e o período do meu mestrado, cerca de 3-4 anos atrás, já vi algumas coisas mudarem. No entanto, tem questões mais profundas na produção científica, ou melhor, na política de produção científica hoje que, a meu ver, barram um pouco. As agências de fomento à pesquisa, importantíssimas para garantia de dedicação exclusiva , ainda pouco dialogam com necessidades efetivas dos pesquisadores, bem como estipula aos departamentos e instituições demandas um tanto bizarras de produção e métricas que mais entravam do que garantem ampliação de acesso. Por isso acho difícil essa pergunta: não seria apenas o mundo acadêmico, na interface de interação pesquisadores/professores com alunos/pós-graduandos, que teria que se tornar mais atraente, aberto a novas ideias e perspectivas, mas a política de produção e acesso científico deveria mudar como um todo. Por que um pesquisador não tem tempo de pesquisa contabilizado no INSS? Por que as bolsas, necessárias porém insuficientes, mais parecem “atestado de pobreza” ao invés de um salário pela produção de um profissional, o pesquisador? Por que dar privilégio para periódicos internacionais, sendo que nem bem um mercado editorial acadêmico está plenamente constituído por aqui? Enfim, muita coisa teria que mudar nesse sentido.

4-Compartilhar conhecimento é pra quem quer, pra quem pode, é papel da academia ela que faça, ou tá na hora de fazer nóiz por nóiz?

Compartilhar conhecimento é para todos! Veja: se nos apropriarmos de ferramentas que temos hoje, podemos fazer isso, sem dúvida! Não que seja fácil, é um desafio. Mas isso pode, e deve, ser uma tarefa de todos, e devemos pensar da forma mais abrangente possível. Se entendermos conhecimento como poder (minha amiga Débora Emm expõe isso muito bem no TED que ela fez), a lógica de que “quem sabe ou pelo menos demonstra saber mais é melhor” faz com que o conhecimento fique concentrado em grupos, esferas que não têm tanto interesse no amplo acesso. Se ferramentas forem criadas, assim como – e percebemos diversas iniciativas nesse sentido hoje como as plataformas de crowdlearning projetos colaborativos e etc – a ideia de acesso cada vez mais demandada – aos poucos, afinal quebrar estruturas não se faz apenas com bits como também com mudança de visão de mundo – podemos transformar isso. Transformar uma lógica que entende o conhecimento como um bem fechado, fazer com que ele seja amplo, irrestrito, democrático. Algumas pirações sobre isso fizeram parte de meus interesses pré-Pitacodemia, como no TEDxMaré no qual falei sobre um conceito, relacionado ao compartilhamento de conhecimento, o Saguão. Fazer por nós é importante,e acho que Pitacodemia tem disso também, mas não podemos deixar de lado as diversas instâncias que já produzem conhecimento relevante constantemente. A ideia é conectar, ampliar, dar acesso, e não “concorrer, separar, competir”, ou entender que vamos criar um “poder de conhecimento” que vai “competir” com outras instâncias. Essa é a lógica que devemos quebrar.

5- Planos de transformar a ideia em (mais) alguma (outra) coisa ou deixa acontecer naturalmente?

Quero deixar a coisa fluir. A criação, chamaria até de prototipagem, do Pitacodemia responde a uma solução que encontrei para dar vazão a alguns interesses que já me rondavam há um bom tempo. Claro que, no limite, depende muito de como as pessoas vão receber o projeto e o quanto elas vão colaborar com ele. Na perspectiva de compartilhamento, nunca fez sentido nenhum para mim criar um projeto no qual eu estivesse falando/criando sozinho: as contribuições para o Pitacodemia são a alma da história. Mesmo que alguns possam ver como “fraqueza”, para mim é a maior força do projeto, ou seja, contar com uma rede de pessoas interessadas em compartilhar o que viram, estudaram, pesquisaram, trabalharam sobre ou apenas tiveram curiosidade com outras pessoas que podem conhecer, buscar e se interessar por aquilo. De novo: é pouco, pode ser. Mas acho que é um passo. Um passo é sempre um passo.

6- Deixe seu alô:

Para terminar, gostaria de convidar os leitores do Say it Loud para conhecerem o Pitacodemia e contribuírem com o projeto. O Pitacodemia é como saguão: quanto mais gente participando e trocando, melhor.

One Comment

  1. Boa, Tulio! Parabéns pelo site! bj

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