João Xavi: quando o Atlântico banha Berlim

Clipe lindão na área, num intercâmbio estético e sonoro muito do bacana. Pois bem senhoras e senhores, João Xavi is back in the game! Depois de 4 anos colaborando com projetos de artistas alemães, ele celebra a retomada de sua carreira com o lançamento do lindo lindo clipe “Atlântico”, o primeiro do disco “Batuque Low-Fi”, em fase de produção.

A música é uma homenagem ao livro Um rio chamado Atlântico, de Alberto da Costa e Silva (tem que ler!!) e traça um paralelo lúdico entre África e Brasil, explorando uma sonoridade afro-hip-hop recheada de sintetizadores e samplers, com participação mais do que especial do paulistano Kiko Dinucci (Metá Metá).

O vídeo foi dirigido pelo coletivo ETA AQUARÍDEA!, editado pelo cineasta Igor Barradas, do projeto lindão Mate com Angu, e traz o ator Guido Marcondes interpretando o orixá Omulu. Os samples invadiram o vídeo em forma de tributo à obra de Jean Rouche, documentarista francês que dedicou a vida a registrar o continente africano em suas múltiplas nuances.

Ó que beleza:

Pra saber mais do lançamento, da vida e do que vem pela frente, bati um papo com o moço e compartilho as novidades como vocês:

1.Você tá há quanto tempo na Alemanha?
Eu vim pra cá pela primeira vez em 2008, pra fazer uma turnê. E acabei voltando no final de 2009, pra morar. Vivi primeiro em Nürnberg, uma cidade de 500 mil habitantes, no sul da Alemanha. E há 2 anos estou em Berlim, que é uma cidade incrível e completamente estimulante!

2- Seu som sofreu influências europeias depois que você se mudou?
Sim, com certeza. Talvez por ter chegado numa cidade não muito grande, eu consegui fazer contatos de forma muito rápida. Em 6 meses eu já fazia um programa numa rádio comunitária e comecei a tocar em um projeto de live dubstep chamado Sabotage Soundtrack, formado por 3 alemães. Acho que esse contato com a música eletrônica – eu cheguei aqui no auge do dubstep – mexeu sim com a minha forma de ver, pensar e fazer música. E o fato de estar chegando num lugar novo acaba te deixando também mais aberto pra experimentar coisas diferentes.

3- Quais são suas maiores referências musicais e estéticas?
Minha primeira referência musical foi minha mãe, que em casa cantava o tempo inteiro (mania que eu adquiri e que mantenho até hoje). Gosto de coisas muito diferentes, como Martinho da Vila e Kraftwerk, e fico feliz por não ser o único a sentir isso. Se for pra citar alguns nomes, fico com Jorge Ben, Fela Kuti e Moacir Santos, é uma trinca que resume bem o meu interesse pelo fenômeno da relação Brasil X África, que é o meu motor estético principal. O que é interessante é que cada vez mais eu vejo os traços de Europa nesta relação, com o tempo aprendi a não ser tão duro e a valorizar esse triângulo Brasil X África X Europa. E isso é um traço comum da vida: o mundo viveu o processo de escravidão, uma das piores experiências que a humanidade vivenciou, mas mesmo entre tanto terror, foi possível brotar um monte de coisas bonitas. E são essas coisas que me movem e é nelas que eu estou interessado.

4- Por que a escolha da estética analógica para o clipe?
Isso tem a ver com a estética inteira do meu trabalho. Curiosamente, a Alemanha é um país onde diferentes tempos convivem de uma forma bem harmoniosa. As pessoas baixam mp3, claro. Mas nunca deixaram de comprar discos ou até fitas k7! Ainda existem locadoras de vídeo espalhadas pelas cidades, e por aí vai… Desde que vim pra cá entrei de cabeça nesse mundo analógico, que sempre achei interessante, mas que não tinha muita facilidade de acesso. Daí comecei a fotografar em analógico, e com a experiência do Sabotage Soundtrack, que era uma banda de música eletrônica onde os beats eram todos tocados ao vivo, com quilos de sintetizadores e samplers, eu acabei pirando nesta possibilidade de fazer música de uma forma mais viva e orgânica. No clipe, e na música, tem a ver também com a proposta do disco, que está em processo de gravação, e vai se chamar Batuque Low-Fi. Que é, em resumo, o encontro dessa tradição brasileira de percussão e batuques em geral, com algumas pitadas de sintetizadores e basslines mais “modernos” e eletrônicos.

5- Você também fotografa né? A fotografia e a música se retroalimentam? Como?
Sim, eu tenho tido pouco tempo pra fotografar, mas nunca parei e espero nunca parar. Eu amo o processo analógico e acho que é algo que está sim intimamente ligado a minha música. Seja escrevendo uma letra, ou enquadrando uma situação, você está sempre operando a partir de um ponto de vista, uma maneira de ver o mundo… Muitas pessoas dizem que minhas fotos revelam belezas onde elas nem sempre são óbvias, e acho que minha música também tem um pouco deste “despertar para o belo”, um olhar mais generoso sobre o mundo. Um quê de “Salve simpatia!”, como diria o grande mestre 🙂

E a gente fica aqui aguardando as boas novas!

Leave a Comment