Magra de Ruim: Intensidade pouca? É bobagem

Começou com a Vitória me dizendo que tinha uma menina do Ceará que fazia umas ilustras que eu ia amar: a Magra de Ruim. E aí, eu amei – porque não tem muito outra escolha.

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Tempos depois ela lançou essa campanha no Catarse – que foi um sucesso e ainda tem 4 dias pra você ajudar e garantir uma recompensa linda linda linda – pra lançar seu primeiro livro, e eu tomei coragem de entrar em contato e pedir uma entrevista. Ela topou e ó: apaixonei mais ainda! Olha como é impossível resistir:

1-Quando você começou a desenhar?
Desde criança. Depois parei um pouco no ensino médio. Quando comecei a faculdade de moda voltei a desenhar e aprendi novas técnicas, estudei anatomia, fiz uns desenhos grandões meio realistas. Eu desenho desde sempre. Para desenhar você tem que imergir por completo, estudar bastante e diariamente.

2- E por que você resolveu contar histórias?
Não sei. Eu tenho um caderno de redação dos meus 12 anos. Na primeira página era minha autobiografia, eu escrevi assim: Sou Sirlanney, tenho 12 anos e quero ser escritora quando crescer. Posso dizer que é o tipo de coisa que não se escolhe, é escolhido. Ou como uma amiga escritora me disse uma vez: todo mundo é escritor, mas só alguns escrevem. Tem uma voz na minha cabeça que está sempre narrando histórias, eu agradeço aos céus por isso.

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3- O que te inspira e quem te inspira?
A vida — eu sei, isso é muito genérico. As coisas que me acontecem, que acontecem aos outos… A paisagem, o céu, um dia bonito, a chuva, as coisinhas todas da existência. Quando elas não são suficientes, quando tudo está negro aos meus olhos, que isso também acontece, me inspiro pela arte. Outros artistas, tanto faz: filmes, fotografias, desenhos, antigos mestres da arte ou uma menina adolescente que publica compulsivamente seus desenhos na internet. E música, principalmente música. Geralmente eu encontro essas coisas no tumblr, ou pesquisando em sites que já tenho salvos no computador, ou procurando nomes que salvei na cabeça. Raramente no facebook.

4-Nas tuas obras, você abre o coração de forma bem intensa, como é esse teu processo de criação (ps: que eu acho lindo demais e acho que foi o que me fez apaixonar loucamente pelo teu trabalho)?
Ah, Muito obrigada! Meu processo varia muito, mas a base de tudo sempre é: sangue, suor e lágrimas. O início é quase sempre o mesmo, um tipo de meditação, não sei se tem a ver com a meditação budista. Eu deito ou tento ficar confortável e deixo meu pensamento passear a vontade. Quando eu não tinha tempo para fazer isso, eu fazia na escola ou no trabalho, por isso constantemente era chamada de distraída. De repente vem uma idéia. Pode ser algo que eu gostaria de dizer para alguém. Não sei de onde ela vem. Às vezes ela é disforme como uma ameba, às vezes ela é completa e forte como um touro. Pode chegar rápido ou não. Então eu pego com cuidado, amanso, moldo. Aí começa o processo da mão na massa que também é cheio de insights e transformações. A escolha do material está ligada com o que eu quero que aquilo seja. Se for um quadro, penso na tinta, cores, suporte, primeiro marco com carvão, às vezes com pastel. Se é quadrinho, sempre começo com o lápis, depois passo nanquim com caneta ou com pincel. Ultimamente estou curtindo fazer um claro e escuro com nanquim e depois colorir no photoshop, mas não sei quanto tempo vou ficar fazendo isso.

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5- Quando você resolveu que a internet seria a melhor plataforma pro teu trabalho?
Nossa, quando eu descobri. Provavelmente foi quando eu tinha 16 anos e no livro de português da escola tinha uma matéria sobre essa novidade chamada “webblog”, eu fiquei fascinada. Eles falavam como era legal, que as pessoas podiam comentar de imediato o que achavam do seu texto. Então passei os dois dias seguintes tentando criar meu primeiro blog e depois a vida toda publicando meus textos na internet. Os quadrinhos vieram só depois, em 2008 ou 2009, quando entrei na faculdade de Belas Artes e comecei a estudar essa nova linguagem.

6-Você esperava o sucesso no Catarse? Como foi receber essa resposta positiva do teu público?
Esperava mais ou menos. Foi sinceramente um passo no desconhecido. Quando eu falei com a produtora que trabalhou no projeto do Zine XXX e da Negahamburguer, eu não sabia como fazer ela acreditar que meu projeto podia dar certo. O que eu tinha para ela? Não é uma causa social, eu estou apenas publicando meu trabalho gratuitamente na internet como se isso fosse minha profissão. É claro que ela podia me achar uma maluca. No vídeo do projeto, eu me desenhei como o Arcano do Louco no tarô muitas vezes é representado: um jovem que dá um passo no desconhecido sem medir as consequências, pois parece muito animado com o caminhar. Eu senti em meu coração que o carinho que as pessoas tem com meu trabalho é tão forte que poderia dar certo. Receber essa resposta positiva foi perceber que ele estava certo.

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7- Tem um monte de meninas ilustradoras e quadrinistas mostrando seu trabalho na internet, e eu acho que você é uma das grandes influenciadoras disso tudo. Você concorda comigo?
Como assim?? Não! Muitas meninas vem me dizer que eu inspirei a desenhar, a criar um blog, a voltar a desenhar, etc. Eu fico muito feliz, isso é natural, arte inspira arte. Eu também dependo da luz de outros artistas, como já disse, e me sinto muito agradecida por ter o poder de iluminar também. Mas essa coisa que tá acontecendo aí na internet é um momento único, inevitável e perfeito! Na minha forma de ver. Quem sente o “foguinho” dentro de si, quer mostrar, quer colocar para fora e fazer parte. Isso se tornou mais simples do que nunca: um papel, um lápis, um scanner, uma conexão qualquer, voilá! Acho que o Zine XXX formou uma corrente importante de apoio para as meninas aqui no Brasil. Meninas como Beatriz Lopes (Zine XXX) e Gabriela Manson (Lovelove6) também são uma fonte de inspiração, de organização e cooperativismo dentro dos quadrinhos. De certa forma nós despontamos como as primeiras a dizer, “Hey! Nós fazemos isso, mas você também pode, chega aí”. Se isso for inspirar, ok, aceito esse doce fardo.

8- Pra terminar: pra você, o que é o amor?
Pra terminar com uma pergunta facinha, né? Sabe… Religião, politica, não se toca nesses assuntos? Amor é a minha religião. Muita gente pode discordar de mim, mas eu acredito em apenas uma lei: o amor. É tão utópico, pode ser ingênuo, mas o amor salvaria tudo, acabaria com todas as guerras. Não confundir com amor romântico. O amor romântico pode conviver com todas as mazelas: o excesso de orgulho, a possessividade, a violência, o rancor, etc. O amor romântico é o que corrói, cega, ou “distorce” como diz Lars von Triers no filme. Eu não quero crucificar o romantismo, pelo contrário, em grande parte do meu trabalho eu tento reescrevê-lo, registrar ele em nosso tempo. No século XIX, fizeram uma vasta literatura a respeito, mas nas tragédias gregas se encontra toda sua fonte, apenas porque não podemos ir mais longe que isso. O romantismo nos lembra que não somos perfeitos. Escuto muito falarem que foi inventado pela Disney. Que bobagem! Walt Disney acabou de completar 100 anos. Em 400 antes de Cristo Eurípedes escreveu a peça Medeia, uma mulher que mata as suas próprias crianças porque não consegue lidar com o abandono do marido, só isso. É uma mitologia muito requintada, elaborada por séculos e séculos. Já o verdadeiro amor conhece tudo e tudo perdoa. Não é fácil amar, o mais comum é que seja difícil.

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Facinho de entender porque eu gamei, né?

One Comment

  1. Manu says:

    Linda de mais!!!
    É incrível como ela consegue me descrever, não me sinto masi tão sozinha nesse mundo .. :s

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